segunda-feira, 23 de abril de 2007

A EXPERIÊNCIA DO SIMULACRO



1. Embora este não seja o assunto principal
Em diferentes ocasiões expressei a minha posição para com o universo da web e, em particular, para com a utilização dos blogs como meios de veiculação de conhecimento, de transmissão de informação, de comentário e discussão pública. A pretexto de um comentário aqui postado, gostaria mais uma vez de confirmar o que penso sobre o assunto. Embora não seja esta a questão que me levou a sentar-me por uns instantes a escrever, é um assunto recorrente que, meia volta, cria alguns equívocos à cerca do que é ou não próprio do meio e o que pretendemos fazer com ele. A web permite-me entrar num circuito de informação alternativa. Não será, por questões de policiamento inerente ao sistema que gere este meio, informação absolutamente livre, ou pelo menos tão livre quanto desejaríamos, mas é uma excelente alternativa aos principais meios de comunicação. Sempre tive um gosto muito forte por fanzines (refiro-me a este outro meio com muito e saudoso respeito) e revejo-me nos blogs por conseguir através deles uma compensação próxima à das publicações impressas que eram (ainda que com muita dificuldade) distribuídas e postas em circulação. Tal como nos fanzines os temas dos blogs são diversos e para mim passear-me pela web / blogosfera é como percorrer uma imensa enciclopédia que só aqui poderia existir. Encontrar uma receita de culinária de curry tailandês, saber que alguém se barricou num museu, encontrar um novo autor de novelas gráficas que ainda não se afirmou no mercado, ou ver as fotos de um amigo amador, são alguns dos meus bons encontros nos blogs.

2. A chatice
Uma outra vantagem que encontro nos blogs é a imediatez com que se processa e se faz chegar informação. De facto queimam-se etapas para se publicarem “notícias”. Não há material impresso, mas há registo, portanto, pouco se perde e muito se ganha. No entanto, a imediatez também pode ser uma grande “chatice”. Por vezes é demasiado fácil cair-se na expressão do que vai à flor da pele e aproveitar este meio para uma confissão descarada do que se andava a moer à meses, dias e anos. Neste caso, os blogs são o abrigo dos pouco corajosos que se escondem atrás de um arbusto e de vez em quando lançam mais uma lenha para a fogueira, na plena convicção que estão a construir uma discussão séria e absolutamente necessária. Pois para mim, que tenho outros interesses e objectivos que não passam por ser uma opinion maker a tempo inteiro e que tenho falta de disponibilidade para permanecer muito tempo online, e que partilho o meu quotidiano com a web apenas numa relação de 80% e 20%, preferia deixar para a web a circulação de informação e ter uma agradável discussão num sítio qualquer e desenvolver o assunto de forma mais proveitosa para ambos os lados.

Obviamente que o que fazemos do meio depende do que queremos fazer dele. Este permite muito, é imenso, mas os limites somos nós que os impomos. Eu imponho os meus para mim.

3. O comentário
O comentário feito à casa é revelador de um certo desânimo, de desconfiança e intolerância não só em relação a este projecto, mas às “coisas” em geral. Responder-lhe-ei por ter interesse em reafirmar a minha convicção inicial e pela possibilidade de transpor o comentário num post, ou seja convertê-lo em mais uma pequena informação.

Quando escrevi o último texto sobre o fecho da casa pensei que se tornassem ainda mais claros os meus objectivos com esta ideia de residência comunitária/troca de talentos e as razões que levaram ao seu encerramento. Como sempre, penso que posso ambicionar chegar, e fazer-me entender, a um grupo considerável de pessoas, mas não a todos. Existirão sempre mil maneiras de ver o que está diante de nós (chamar-se-á a isto interpretação!) mas como se sabe, a realidade (ou a verdade) é sempre a de cada um.

4. A encenação
O terceiro paragrafo é para mim o mais importante no texto, é precisamente a resposta mais pronta que lhe posso dar.
|-“Era a experimentação de um modelo que se propunha, nada de novo no contexto dos artist run spaces, das casas okupadas, das pequenas comunidades de artistas e de outros grupos. Mas era uma experiência que tinha que urgentemente ser reproduzida, sem qualquer problema de ser engolida pelo passado onde podemos reconhecer situações semelhantes a esta, porque teve desde o início um sentido próprio, inabalável, o de nos lembrar coisas simples como a partilha, a troca, a generosidade, a tolerância e a criatividade.” - |

Sem me repetir, dir-lhe-ia que a casa foi esteticamente encenada, preenchida e decorada mas não se deve confundir este artificio com a vivência da casa. O mobiliário, a pintura e cortinados pertenceram mutuamente ao necessário e ao supérfluo, ao útil e ao decorativo, porque as casas das pessoas são mesmo assim e porque nunca uma experiência teria lugar na casa se não houvessem condições para tal. Mesmo, aqui, a decoração teve a sua utilidade uma vez que tornou o ambiente confortável. A experiência que foi provocada e positivamente respondida, é o aspecto que jamais podia ser encenado nem decorado.

5. Legitimidade para fazer juízos
Obviamente que acho que é natural que alguém me diga que eu não estou a ter uma experiência real perante uma determinada situação, ainda que eu assegure que sem dúvida alguma que estou e abane a cabeça repetidas vezes com extrema convicção. A experiência de cada um tem uma validade para o próprio. Se não há acordo, não há nada a fazer, não é este o seu barco (ver mural quando estiver disponível a foto)! Eu propús uma experiência, um modelo, ao qual esperava aderência, e sei que este se tornou parte da realidade, com valor para quem lá esteve e para quem não esteve mas que se revê neste projecto. Pessoalmente considero que a missão foi cumprida.

6. O fim e a estupidez
Retomando o tema das “duração das coisas”. Tomo como uma ofensa que alguém realmente muito estúpido me diga que foi a fragilidade do projecto que o fez terminar abruptamente. Talvez o meu texto tenha sido brando demais e não o tenha esclarecido. As reais razões do fecho da casa, refiro-me às razões que importam referir e não às menores, relacionam-se com a falta de viabilidade de uma situação destas se inserir no nosso dia-a-dia e de se tornar permanente. Se calhar não foi a fragilidade mas a força do projecto que o levou ao fim. Deveria ter equacionado esta perspectiva antes de qualquer outra. Não querer ver deste lado, demonstra, à partida, má vontade.

7. O projecto e a sua larga escala
A casa envolvia muita gente, que simultaneamente eram actores e espectadores, porque todos podiam entrar na casa com um encargo e aderir a outro. Isto, enquanto foi possível, saiu fora do encenado e do previsto, foi autêntico e teve uma vida exterior a mim e a quem esteve ao meu lado na preparação da casa. Passados estes dias, o que melhor me recordo é ter saído à rua, Sábado à noite, e olhar de longe para a casa e vê-la a funcionar por si, enchendo-se pelo cruzamento e interacção das pessoas umas com as outras e com o espaço. Tudo o que eu fiz foi pegar no espaço que me foi cedido para o abrir e devolver aos outros. Fazendo uso do teatro como exemplo, tinha um palco e dei o palco ao público e disse: subam e actuem.

3 comentários:

Yegritos disse...

muy interesante

amália disse...

Numa casa portuguesa fica bem
pão e vinho sobre a mesa.
Quando à porta humildemente bate alguém,
senta-se à mesa co'a gente.
Fica bem essa fraqueza, fica bem,
que o povo nunca a desmente.
A alegria da pobreza
está nesta grande riqueza
de dar, e ficar contente.

Quatro paredes caiadas,
um cheirinho á alecrim,
um cacho de uvas doiradas,
duas rosas num jardim,
um São José de azulejo
sob um sol de primavera,
uma promessa de beijos
dois braços à minha espera...
É uma casa portuguesa, com certeza!
É, com certeza, uma casa portuguesa!

No conforto pobrezinho do meu lar,
há fartura de carinho.
A cortina da janela e o luar,
mais o sol que gosta dela...
Basta pouco, poucochinho p'ra alegrar
uma existéncia singela...
É só amor, pão e vinho
e um caldo verde, verdinho
a fumegar na tijela.

Quatro paredes caiadas,
um cheirinho á alecrim,
um cacho de uvas doiradas,
duas rosas num jardim,
um São José de azulejo
sob um sol de primavera,
uma promessa de beijos
dois braços à minha espera...
É uma casa portuguesa, com certeza!
É, com certeza, uma casa portuguesa!

ANONIMATO JÁ PARA TODOS OS BLOGGERS: PORQUE É UM DIREITO NOSSO! disse...

AGORA JÁ POSSO DECORAR ESTA MÚSICA...